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PERFIL: Do balcão da mercearia para o topo do mundo das farmácias

10/10/2016


\"Dizem que só fala de um passado de pobreza quem já venceu na vida.\" Como se justificasse o que diria depois, Francisco Deusmar de Queiróz começa dessa forma a contar sua história. Hoje dono da terceira maior rede de drogarias do País, a Pague Menos, o empresário começou de baixo, e aos nove anos vendia frutas pelas ruas de Fortaleza.
Nascido no município de Amontada, no litoral do Ceará, foi com oito anos que se mudou para a capital. \"Meu pai queria que eu fosse doutor\", brinca. \"Fomos para lá para que eu estudasse em um colégio de bom nível. Estudei em um dos melhores da cidade, mas para ajudar com a mensalidade, eu saía vendendo frutas de porta em porta.\"
Depois de trabalhar por vários anos como balconista na mercearia de seu pai, e logo após ingressar no curso de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), conseguiu seu primeiro emprego formal, na IBM. \"Fiquei lá por dois anos, e depois fui para o mercado financeiro, trabalhar em uma distribuidora de valores\", relata.
Foi nesse setor que o empresário encontrou inspiração para abrir seu primeiro negócio, e em 1977, com então 30 anos de idade, fundou a PAX Corretora. \"Os dois anos seguintes foram prósperos, e em 1980 eu já tinha o meu primeiro milhão.\"
Com a experiência do sucesso de sua primeira empresa, Deusmar decidiu investir em um novo negócio. \"Como nas minhas veias corre o sangue do varejo, eu quis entrar para o comércio\", resume, se referindo à criação da Pague Menos, cuja primeira loja foi inaugurada em 19 de maio de 1981. Desde o início, o propósito era ser grande, e ele conta que para isso foi atrás de ter acesso direto ao fornecedor, sem a necessidade de intermediários. A ideia deu certo, e em apenas um ano a rede já tinha cinco unidades em operação.
Fórmula do sucesso
Dali em diante, o empresário foi atrás de encontrar maneiras de inovar e se diferenciar da concorrência. Um exemplo que ilustra bem a forma como o cearense pensa ocorreu oito anos depois da criação da primeira loja. \"Em 1989 eu estava andando em Belo Horizonte, quando vi uma bicicleta em que estava escrito: \'lavanderia Eureca, vende vale-transporte\'. Na hora eu pensei: se uma lavanderia pode vender vale-transporte, eu também posso.\"
O empresário continua: \"Eu ia viajar naquela mesma noite, mas cancelei e no dia seguinte fui até a lavanderia perguntar como aquilo funcionava. O dono me explicou que ele recebia os vales-transportes em consignação, vendia e pagava três dias depois. Nesse intervalo aplicava o dinheiro\", conta, completando que assim que chegou em Fortaleza começou a vender os vales dentro de suas farmácias.
Outro caso semelhante ocorreu no meio de uma reunião da Bolsa de Valores, em que um dos presentes disse que as corretoras deveriam ser iguais aos bancos, e receber o pagamento de contas. \"As corretoras não sei, mas as drogarias sim\", brinca. \"Na época eu já tinha umas 30 lojas, e passei a permitir que o cliente pagasse suas contas de luz, água e telefone dentro delas. Doze anos depois o Banco Central criou o correspondente bancário, mas a Pague Menos foi pioneira.\"
Se a inovação foi importante no começo, para chegar ao faturamento bilionário que a rede tem hoje, e à marca de 900 lojas espalhadas por todo o Brasil, Deusmar diz que o fundamental foi acreditar no futuro, e não ter medo de sair pelo mundo.
\"Adotamos uma série de estratégias para fidelizar o cliente. Foi assim que conseguimos lá do Nordeste ser a maior do País\", afirma. Até 2012, a Pague Menos era a maior rede de farmácias em território nacional. \"Quando os paulistas ficaram cansados de apanhar de nós, a Raia com a Drogasil se juntaram\", completa o executivo, rindo.
Para chegar ao topo, no entanto, o caminho foi tortuoso e cheio de percalços. Um dos maiores, conta, foi quando um de seus filhos foi sequestrado e passou 12 dias em cativeiro. No âmbito dos negócios, cita um problema que teve em um dos centros de distribuição da empresa. \"Investi em uma tecnologia austríaca, que não funcionou, e me fez perder R$ 100 milhões de faturamento. Nessa época, quase que eu quebro\", diz.
Uma frustração recente do executivo é em relação à corretora PAX - sua primeira empresa -, que existe até hoje, mas que será encerrada. \"É um mercado que está muito difícil para a pequena. Resultado: tchau e um abraço\".
Vida familiar
Casado há 45 anos, e pai de quatro filhos, Deusmar conta que desde os dez todos trabalham na empresa. \"Hoje eu seria preso por trabalho infantil, mas com dez anos metade das férias eles passavam carregando caixas nos centros de distribuição.\" Atualmente, todos seguem na companhia. Em tom jocoso, ele diz que fez um acordo com eles: quem desse mais netos teria a maior parte da herança. \"Já estou com quatorze\", conta aos risos.
Apesar dos desafios diários, e das dificuldades enfrentadas durante sua vida, Deusmar diz que todos os dias de manhã, independentemente de onde ele estiver, reza um pai nosso junto com sua mulher, e antes de sair para o trabalho diz para ela: \'vou para a festa\'. \"Porque temos que enxergar nosso dia assim, como se estivéssemos saindo para uma festa. E se surgir algum problema é só tomar duas doses de uísque que resolve tudo\", finaliza.
Autor: Pedro Arbex

Fonte/Autor: Tudo Farma/DCI

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